O desemprego no Chile atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos AFP via Getty Images Falando para um grupo de empresários cristãos reunidos em um pequeno auditório, o ministro da Fazenda do Chile, Jaime Quiroz, pediu que eles evitassem o pessimismo. Para isso, ele usou citações da Bíblia e também alguns números. A mensagem era dirigida àqueles que o conhecem há muitos anos. Quiroz desenvolveu toda a sua carreira profissional como empresário no setor privado. "Não percam a calma, nem se desesperem", declarou ele em Santiago no início de outubro, após a publicação de uma série de indicadores fracos sobre a economia chilena. Agora no g1 Os investimentos produtivos, privados e públicos, apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre deste ano, principalmente devido à queda da construção civil. O desemprego atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos. E a demanda interna apresentou crescimento praticamente nulo. O custo de vida no país aumentou em julho para 4,1%, com base nos últimos 12 meses. A alta foi impulsionada, em grande parte, pelo forte aumento do preço dos combustíveis. O Chile importa quase todo o petróleo que consome. Já a mineração sofreu redução drástica. O país é o maior exportador de cobre do mundo. Tudo isso ocorre no contexto de um plano de austeridade fiscal implementado pelo governo do presidente José Antonio Kast, de direita radical. Ele chegou ao poder em março, com a promessa de reativar os investimentos e o emprego. Agora, ele enfrenta um nível de desaprovação de mais de 60%, segundo pesquisas locais. A paralisação econômica ficou em evidência devido à queda do PIB chileno em 0,5%, no primeiro trimestre do ano, e de 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos do ano passado. Esta é a maior retração da economia do Chile desde a pandemia de covid-19. O primeiro semestre de 2026 registrou a maior queda da economia chilena desde a pandemia de covid-19 Bloomberg via Getty Images O impacto dos preços dos combustíveis Poucos dias depois do início da guerra no Irã, Kast assumiu a Presidência no Chile com sua própria motosserra, a fim de reduzir os gastos fiscais e levar adiante um plano de austeridade econômica que deveria impulsionar o crescimento da economia do país. Mas o conflito no Oriente Médio fez o preço do barril de petróleo disparar. Enquanto a maioria dos países procurava uma forma de controlar a situação, o governo chileno tomou a decisão de não intervir, deixando o custo dos combustíveis subir de acordo com o mercado. Este episódio ficou conhecido como bencinazo ("gasolinaço", em português), causando manifestações nas ruas e indignação entre muitos cidadãos chilenos. Com a transferência do choque petrolífero para os consumidores, o preço dos combustíveis não afetou apenas o bolso das famílias mais vulneráveis e das pequenas empresas. A alta também foi amplificada em efeito cascata e transmitida para o restante da economia, causando aumento da inflação. O preço dos combustíveis no Chile disparou em 2026 Getty Images O governo que havia acabado de tomar posse tomou esta decisão considerando que "o custo fiscal de compensar a alta dos preços era excessivo e ameaçava debilitar seus esforços para reduzir o déficit fiscal", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o principal economista para as Américas do centro de estudos Economist Intelligence Unit, Nicolás Saldías. "O custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou", explica ele. Esta decisão "afetou a confiança dos consumidores", segundo Joan Domene, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics. O preço médio que os consumidores pagam pela gasolina na bomba, calculado com base na Região Metropolitana de Santiago (a mais povoada do país), aumentou em cerca de 30% desde os dias anteriores ao início da guerra no Irã até meados de outubro. Já o preço do diesel aumentou em mais de 40%. Os especialistas concordam que, no próximo ano, poderá haver leve desaceleração dos preços globais da energia, embora marginal. Esta projeção é atualizada constantemente. Mas, se este cenário se mantiver e não surgirem novos contratempos, é possível que surja "uma tendência para a recuperação da economia já no primeiro trimestre do ano que vem", segundo Domene. O preço dos combustíveis no Chile disparou em 2026 Getty Images A queda da produção mineral A mineração, especialmente de cobre, é o principal produto de exportação do Chile e um dos setores mais importantes para o crescimento econômico do país. Por isso, a queda da mineração em agosto foi tão negativa. O índice de redução foi de cerca de 17,4%, em termos anuais. Esta queda levou a atividade mineradora chilena ao seu nível mais baixo das últimas três décadas. O mês de agosto marcou o nível mínimo, mas a baixa produção de cobre vinha apresentando tendência negativa ao longo do ano. Acrescente-se a isso as interrupções operacionais nas minas e condições climáticas muito adversas, em julho e agosto. No momento, as projeções indicam que a produção mineradora deverá aumentar no próximo ano, colaborando para a reativação econômica do país. Mas uma das preocupações do setor é que a concentração de cobre nas rochas diminuiu, elevando os custos de produção e gerando incertezas. A drástica queda da mineração em agosto levou o Banco Central chileno a reduzir as projeções de crescimento econômico deste ano, para o nível de 0,25% a 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu sua estimativa para 0,6%. Se as estimativas se concretizarem, o Chile será um dos países com menor crescimento da América Latina em 2026. O único país com prognóstico inferior na região é a Bolívia. A percepção econômica dos consumidores chilenos se deteriorou, segundo o Índice de Percepção da Economia (Ipec) de setembro Bloomberg via Getty Images Austeridade fiscal Parte do debate no Chile se concentra em saber se a paralisação econômica é transitória ou se irá se prolongar ao longo do tempo. Desde que Kast assumiu o poder, um dos seus principais focos no setor econômico tem sido a austeridade fiscal. Suas medidas incluíram o corte de 3% do orçamento de todos os ministérios, uma controversa redução ou fechamento de programas considerados "ineficientes" pelo governo e a redução dos investimentos públicos diretos. Neste sentido, Nicolás Saldías destaca que as políticas fiscais do governo chileno "também estão reduzindo o crescimento econômico". O governo conseguiu reduzir o déficit, em parte, graças à redução dos gastos públicos, o que diminui a demanda da economia, segundo o economista. Com a bandeira do ajuste fiscal nas mãos, o governo chileno apresentou a chamada "megarreforma", um pacote de medidas propostas para o Congresso. Elas foram apresentadas como estímulo ao crescimento econômico e aos investimentos. Basicamente, o pacote inclui uma reforma tributária que, entre outros pontos, reduz progressivamente os impostos para as empresas, de 27% para cerca de 23%, e garante invariabilidade tributária a longo prazo para os grandes investimentos. O Congresso aprovou a megarreforma, que foi sancionada pelo presidente Kast no início de outubro, após árduos debates. A questão é se a redução de impostos corporativos e os outros incentivos para investimentos produzirão crescimento e empregos em níveis suficientes para compensar a queda da arrecadação fiscal. Enquanto as medidas começam a ser implementadas e à luz dos indicadores existentes no momento, Joan Domene defende que o próximo ano deve trazer "uma reversão de muitos dos fatores causadores de incertezas". O economista para a América Latina da Bloomberg Intelligence, Felipe Hernández, é da mesma opinião. Para ele, se as reformas forem implementadas e cumprirem efetivamente as previsões do governo, como esperam as empresas, "poderemos começar a observar efeitos positivos na economia no próximo ano". As previsões indicam melhoria da situação econômica chilena em 2027 AFP via Getty Images Dificuldades para a população Atualmente, o Congresso chileno está discutindo a Lei Orçamentária para 2027. Ela contempla um crescimento real dos gastos públicos de apenas 1,5%, um objetivo considerado austero em comparação com os governos anteriores. A oposição vem questionando duramente este projeto. Ela denuncia que a proposta afeta dezenas de programas sociais que beneficiam pessoas vulneráveis, mas que o governo considera que não atingem os seus objetivos. Em meio a esta situação, grande parte da população está frustrada com o desempenho econômico do país, segundo as pesquisas. Com a alta da inflação e o desemprego em máximos históricos, muitos cidadãos enfrentam dificuldades na sua vida diária. O consumo geral das famílias chilenas cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados fechou agosto em queda de 1,2% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas. Algumas semanas atrás, o governo anunciou um plano de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,5 trilhões). O objetivo é criar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027, acelerando obras públicas e oferecendo subsídios às empresas, para incentivar contratações. Este tipo de plano não fazia parte da política de austeridade adotada pelo governo chileno, quando assumiu o poder em março. Mas, frente às circunstâncias, se o anúncio for cumprido, poderá dar oxigênio à economia do país.
À medida que as tecnologias se tornam mais presentes no cotidiano, formuladores de políticas públicas avaliam seus benefícios diante de preocupações com segurança de dados e influência estrangeira Benjamin Bathke/DW Não faz muito tempo, a GoPro era sinônimo de câmera de ação. Em seu auge, em 2015, a empresa americana reinava absoluta, com cerca de 6,6 milhões de unidades vendidas naquele ano e participação de mercado superior a 70%. Hoje, a pioneira luta pela própria sobrevivência. O principal culpado? A concorrência chinesa. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 As maiores rivais da GoPro, DJI e Insta360, entraram no mercado de câmeras de ação em 2019 e 2021, respectivamente. Hoje, elas respondem por mais de 90% das vendas globais de câmeras inteligentes portáteis. Alexander Hannemann, que usa regularmente câmeras de ação para filmar seus passeios demotocicleta, diz que trocou a GoPro pela Insta360 há cerca de dois anos. Agora no g1 "A qualidade é muito melhor do que a da GoPro, mesmo quando estou acelerando e entrando em curvas a cerca de 80 quilômetros por hora", disse à DW. A GoPro escapou da falência em setembro, após baque por apostas malsucedidas em produtos e concorrência dos smartphones Christian Ohde/imageBROKER/picture alliance via DW A crescente liderança tecnológica da China O caso da GoPro não é exceção. Desde aproximadamente 2010, muitas marcas chinesas não apenas alcançaram, mas superaram rivais ocidentais que antes dominavam o setor de tecnologia de consumo, de TVs inteligentes a aspiradores robóticos. Já ficou para trás a época em que Made in China era sinônimo de produtos baratos e produzidos em massa. "A China ainda fabrica produtos acessíveis", afirma Chris Pereira, empreendedor canadense e autor com mais de 20 anos de experiência no país. "Mas os produtos também são de alta qualidade." Essa combinação fez com que bem mais da metade dos novos produtos globais de tecnologia para o consumidor passassem a vir de fornecedores chineses, acrescenta Pereira. BYD, Xpeng e outras montadoras chinesas venderam quase dois terços de todos os carros elétricos comercializados no ano passado, superando empresas já estabelecidas, como a Tesla. No segmento de aspiradores robóticos, marcas chinesas dominam o mercado global, enquanto a americana iRobot, antiga pioneira do setor, tem dificuldades para competir. Mas por que as empresas chinesas superam cada vez mais seus rivais ocidentais? Pereira, cuja consultoria iMpact ajuda empresas chinesas a ganhar espaço no exterior, atribui esse sucesso à intensa concorrência doméstica em cidades como Shenzhen, Hangzhou e Xangai, a cadeias de suprimentos altamente integradas e a uma cultura empresarial orientada para a ação, que permite às companhias inovar e responder rapidamente aos problemas. Outros fatores importantes para a vantagem competitiva chinesa incluem automação industrial incomparável, uso estratégico de inteligência artificial na manufatura, agilidade regulatória e mão de obra relativamente barata. Juntos, esses elementos resultam em custos de produção significativamente menores e ciclos de inovação muito mais rápidos do que os observados em outras economias. Joey Cheng, fundador da Prolo Ring, empresa que fabrica anéis que permitem acesso a controles remotos e outros dispositivos usando apenas os polegares Benjamin Bathke/DW Joey Cheng, que se mudou para os Estados Unidos para fazer doutorado há mais de 20 anos, conhece tanto o lado do consumidor americano quanto o do produtor chinês. Embora sua startup esteja sediada nos EUA, quase toda a produção é realizada em Shenzhen, onde é fabricada uma grande parcela dos equipamentos eletrônicos e dispositivos de consumo do mundo. "A cadeia de suprimentos de Shenzhen é praticamente inevitável para reduzir custos e desenvolver produtos rapidamente", diz Cheng. "Especialmente para uma startup, é preciso colocar o produto no mercado depressa ou você será atropelado pela concorrência." Persistem preocupações com privacidade e segurança Embora os consumidores estejam aderindo em massa às empresas chinesas, algumas ressalvas permanecem. Uma pesquisa recente mostrou que mais de 90% dos europeus não confiam seus dados a empresas chinesas de tecnologia, enquanto cerca de 80% desconfiam das americanas. Os alemães apresentaram o nível mais elevado de desconfiança. Embora utilize câmeras da DJI e da Insta360 em suas viagens, a blogueira Nadine diz que prefere não ter dispositivos domésticos conectados de fabricantes asiáticos." "Meu aspirador robô é de uma empresa alemã justamente por isso: para que os dados permaneçam em conformidade com as regulamentações alemãs. Afinal, os fabricantes podem se conectar diretamente à câmera", disse ela, referindo-se a casos de invasão de câmeras e sistemas de áudio envolvendo aspiradores robóticos. A fabricante chinesa de óculos inteligentes Xreal entrou recentemente no mercado europeu por meio de varejistas, como a britânica Currys Andy Wong/AP Photo/picture alliance via DW Ainda assim, Pereira afirma que empresas chinesas em expansão internacional precisam pagar um "prêmio de confiança". "Esse déficit de confiança significa que elas precisam ser ainda mais competitivas em produto e preço para que o mercado as escolha", afirma. Segundo ele, essa distância pode ser reduzida por meio de uma presença física nos mercados estrangeiros, como a primeira fábrica europeia de carros de passeio da BYD, cuja inauguração é esperada para o fim deste ano na Hungria. Empresas chinesas afirmam cumprir as regras de proteção de dados da União Europeia. No entanto, leis de segurança nacional tanto nos EUA quanto na China podem obrigar companhias a entregar dados ao governo, e autoridades alemãs observam que há supervisão limitada sobre possíveis transferências de dados de servidores europeus para outros países. Além das preocupações com privacidade, empresas chinesas de tecnologia de consumo também vêm sendo alvo de escrutínio por suspeitas de espionagem e outros riscos, mais recentemente em relação a dispositivos conectados, como veículos elétricos. Uma nova guerra comercial está a caminho? Diante das preocupações de segurança, dos déficits comerciais e do domínio chinês em diversos setores, os Estados Unidos e vários outros países ocidentais impuseram tarifas, listas de restrições e exigências rigorosas a importações e empresas chinesas. No fim de julho, o governo Trump proibiu a importação de robôs humanoides fabricados fora dos EUA. Um representante da fabricante chinesa de robôs Primebot disse à DW que todas as empresas chinesas de tecnologia de consumo estão sentindo os efeitos dessas medidas. "Talvez busquemos cooperação com uma empresa americana local. Outra solução possível é construir uma fábrica lá", afirmou. Países europeus e a própria União Europeia também avaliam a adoção de mais tarifas contra empresas chinesas. Chris Pereira prevê que essas tarifas irão acelerar duas tendências entre as companhias chinesas: transferir mais produção para outros países e concentrar-se cada vez mais em desafiar marcas ocidentais de primeira linha com produtos premium. "Autoridades e empresas chinesas reconhecem que a manufatura precisa ser localizada até certo ponto. Uma razão é amenizar as dificuldades de exportação; outra é gerar confiança local", resume Pereira. "A outra tendência é que, uma vez que as tarifas eliminam a vantagem de preço na base do mercado, a margem que sobra está no topo. Por isso, marcas chinesas competem cada vez mais diretamente com nomes ocidentais já consolidados, justamente onde a confiança é mais importante." As empresas ocidentais conseguem competir? À medida que o domínio chinês continua crescendo, empresas ocidentais buscam formas de permanecer competitivas. Kaz Merchant, que trabalha em uma companhia britânica de importação e exportação de equipamentos de tecnologia da informação, afirma que empresas menores, em particular, precisam encontrar nichos geográficos específicos. "Elas precisam ter um diferencial próprio para determinado produto, algo que a China talvez não ofereça naquela região. Ou então precisam se associar a uma empresa chinesa", diz. Para Pereira, uma questão fundamental que a Europa precisa resolver é a velocidade de resposta dos órgãos reguladores. "Os reguladores chineses dizem de forma muito clara e rápida o que é possível fazer. Essa velocidade ajuda as empresas a se aperfeiçoar e ter sucesso no exterior", afirma. "Se você esperar semanas por uma resposta, vai perder negócios."
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